Coluna de Thiane Loureiro no Jornal da Comunicação (04.10.2007)

A Web 2.0 anda chata. Agora todo mundo entende de blogs, Second Life, rede social de relacionamento e viral. Todas as agências afirmam ter departamentos de “mídia digital”, há pelo menos uma palestra ou um workshop por semana e os palestrantes variam desde pessoas com renome na propaganda e nas relações públicas até completos desconhecidos.
E eis que abro meu e-mail pessoal e diariamente algum "coleguinha" me envia uma "pauta para avaliação". Ou seja, esses tais departamentos, liderados por todos esses que se dizem entender de Internet, devem ter me encontrado em alguma lista de blogueiros e apostando no que lá fora se chama "blogger relations". Mas ninguém se deu ao trabalho de ir ao Google checar minhas referências. Pior, o cliente deve estar pagando para ter o produto dele simplesmente deletado.
Basta conversar com as pessoas nos eventos para ver que 90% da platéia não entendeu nada. Com tanto frisson em torno da Web, tendemos a achar que o conceito está disseminado. Mas a verdade é que a Internet ainda é pouco compreendida. Entre os 10% que entenderam alguma coisa, quase ninguém tem blogs próprios ou corporativos, pouquíssimos navegam por diferentes redes sociais e todos competem de forma acirrada, com medo de compartilhar conteúdo e idéias.
O mercado perde, o cliente perde. Aprender sobre a Web e suas ferramentas é bastante simples: basta estar conectado, ler blogs, livros e pesquisas. Tudo está à disposição de qualquer pessoa a fim de se dedicar algumas horas por semana a esse aprendizado. Entender as mudanças de comportamento e oportunidades que a Web traz também é fácil. Nada melhor do que ter um blog, ainda que ele não seja profissional nem superpopular, para testar widgets, compreender como é que se cria relacionamentos, fidelizar públicos, mensurar resultados.
Um bom profissional de Web, tanto na propaganda quanto nas relações públicas, se forma online, experimentando, vivenciando, fuçando a Internet. Só quem incorporou a Web consegue criar uma estratégia, enxergar a outra ponta da conversação e ter jogo de cintura para mudar as táticas conforme as reações.
Esses profissionais são raros. Mas só eles entendem que não, a Web não é essencial para boa parte das pessoas e chamar a atenção delas, especialmente num mundo onde existe excesso de informação e déficit de atenção, requer constante criatividade e humildade para primeiro ouvir, depois agir.
A Web 2.0 veio para ficar nem tanto por conta da compreensão que o mundo tem sobre o que ela representa, mas exatamente porque cada dia mais a vida converge para o celular, a TV digital, os sites de notícia e as comunidades. Porque os jovens que chegam ao mercado de trabalho nunca viram uma ficha telefônica e não conhecem a vida sem e-mail ou messenger. E da mesma forma que um dia largamos as listas Oesp pelo Google, muito em breve tudo o que hoje parece "absurdo" será absolutamente normal para nós.
Aí sou obrigada a ser repetitiva. Empresas e marcas que queiram se destacar e sobreviver nesse cenário precisam ter planos de negócios sustentáveis para Web. Com isso, necessitam de profissionais com conhecimento para orientá-las e posicioná-las da maneira correta -- e isso está longe de simplesmente seguir o "hype". A Web 2.0 é bem mais que blogs e virais. E essa é uma ficha que ainda não caiu.